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Dificuldade de governar



Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar.



Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. 

Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. 

Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. 

E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

...


Poema do Silêncio

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.


José Régio


Bethânia diz o "Poema do menino Jesus" (de Fernando Pessoa)

A voz única da diva brasileira, cujo maior orgulho era saber que muitos escolhiam fazer amor ao som da sua música e da sua voz!


Neste vídeo, a cantora Bethânia diz o "Poema do menino Jesus", de Fernando Pessoa...
e, em seguida, canta "O doce mistério da vida".
(Extracto do Dvd "Maricotinha ao Vivo" Maria Bethânia)

Abençoada mãe que pariu Caetano Veloso e Maria Bethânia!



Saramago: O ateu que se dizia "profundamente religioso"

O ateu que se dizia "profundamente religioso"

"Se Deus para mim não existe não se pode fazer um ajuste de contas com algo que não existe. A minha mentalidade no fundo é uma mentalidade cristã.Os meus valores e tudo isso estão empapados de cristianismo. Às vezes dizem-me: por que é que você que é ateu se preocupa tanto com Deus ou se ocupa dele tantas vezes? Porque Deus está aqui. Onde está Deus? Na cabeça de cada um de nós."

"Como se morre?  Nesse instante extremo, sentiste um respirar que te alargava e te expandia mais os olhos até os confins do universo inteiro? Abriste os olhos? Só em sonhos viste? Morreste - como se morre?"

Era já um escritor conhecido quando o confronto com a divindade lhe traçou o perfil de iconoclasta. Gostou e quis mais.

a propósito de SARAMAGO  (1922-2010)
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1597501


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