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Noite de sonhos voada




Noite de sonhos voada 
cingida por músculos de aço, 
profunda distância rouca 
da palavra estrangulada 
pela boca armodaçada 
noutra boca, 
ondas do ondear revolto 
das ondas do corpo dela 
tão dominado e tão solto 
tão vencedor, tão vencido 
e tão rebelde ao breve espaço 
consentido 
nesta angústia renovada 
de encerrar 
fechar 
esmagar 
o reluzir de uma estrela 
num abraço 
e a ternura deslumbrada 
a doce, funda alegria 
noite de sonhos voada 
que pelos seus olhos sorria 
ao romper de madrugada: 
— Ó meu amor, já é dia!...



Manuel da Fonseca

Acorda amigo... antes que seja tarde



Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.



Manuel da Fonseca


Vida



Vida:
sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos

...

Adormecer


Adormecer

Vai vida na madrugada fria. 

O teu amante fica, 

na posse deste momento que foi teu, 
amorfo e sem limites como um anjo; 
a cabeça cheia de estrelas... 
Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou. 
Fica inútil e hirto como um deus, 
desfalecendo na raiva de não poder seguir-te! 

Manuel da Fonseca

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