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O sonho comanda a vida


Pedra Filosofal - António Gedeão / Manuel Freire

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.



Pedra Filosofal

António Gedeão

Pedra Filosofal (RTP)

Gota de Água


Gota de Água


Eu, quando choro, 
não choro eu. 
Chora aquilo que nos homens 
em todo o tempo sofreu. 
As lágrimas são as minhas 
mas o choro não é meu.


António Gedeão



Sentir tudo de todas as maneiras, num só momento


"(...)
Sentir tudo de todas as maneiras, 
Viver tudo de todos os lados, 
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, 
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos 
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
 (...) "



Lágrima de preta



Lágrima de preta





Encontrei uma preta 

que estava a chorar, 
pedi-lhe uma lágrima 
para a analisar. 

Recolhi a lágrima 
com todo o cuidado 
num tubo de ensaio 
bem esterilizado. 

Olhei-a de um lado, 
do outro e de frente: 
tinha um ar de gota 
muito transparente. 

Mandei vir os ácidos, 
as bases e os sais, 
as drogas usadas 
em casos que tais. 

Ensaiei a frio, 
experimentei ao lume, 
de todas as vezes 
deu-me o que é costume: 

nem sinais de negro, 
nem vestígios de ódio. 
Água (quase tudo) 
e cloreto de sódio. 




António Gedeão


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